(Ou "Como explicar a paixão entre duas pessoas supostamente belas sem ultrapassar os limites do conhecimento objetivo e da linguagem significativa")
"Se o espírito da espécie que dirige dois amantes, sem eles o perceberem, pudesse falar pela sua boca e exprimir suas idéias claras, em vez de se manifestar por sentimentos instintivos, a alta poesia deste diálogo amoroso, que na linguagem actual só fala por imagens romanescas e parábolas ideais de aspirações infinitas, de pressentimentos duma voluptuosidade sem limites, de inefável felicidade, de fidelidade eterna, etc., traduzir-se-ia assim:
Dafnis - Gostaria de fazer presente dum indivíduo à geração futura, e creio que lhe poderias dar o que me falta.
Cloe - Tenho a mesma intenção, e parece-me que te seria fácil dar-lhe o que eu não tenho. Vamos a ver!
Dafnis - Dou-lhe estatura elevada e força muscular: não tens nem uma nem outra destas coisas.
Cloe - Dar-lhe hei lindas formas e pés muito pequenos: não possuis nada disso.
Dafnis - Dou-lhe uma pele fina e branca que tu não tens.
Cloe - Dou-lhe cabelo e olhos pretos: tu és loiro.
Dafnis - Dou-lhe o nariz aquilino.
Cloe - E eu a boca pequena.
Dafnis - Dou-lhe a coragem e bondade que não poderiam emanar de ti.
Cloe - Dou-lhe uma bela fronte, espírito e inteligência, que não poderias dar-he.
Dafnis - Estatura elegante, belos dentes, saúde robusta, eis o que receberás de nós: realmente, entre ambos podemos dotar na perfeição o futuro indivíduo; por isso te desejo mais do que qualquer outra mulher.
Cloe - Também eu te desejo."
(A. S.)